Poesia Mística


Senhor, esta é a súplica que dirijo a ti: fere, fere pela raiz a avareza em meu coração.
Dá-me forças para suportar alegremente minhas alegrias e tristezas.
Dá-me forças para que meu amor frutifique em serviço.
Dá-me forças para que eu nunca despreze o pobre, nem dobre meus joelhos diante do poder insolente.
Dá-me forças para elevar minha mente muito acima da pequenez do dia-a-dia.
E dá-me forças, finalmente, para entregar com amor minha força à tua vontade.
[Tagore, Gitanjali 36]

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Em uma noite escura
De amor em vivas ânsias inflamada
Oh! Ditosa aventura!
Saí sem ser notada,
Estando já minha casa sossegada.
Na escuridão, segura,
Pela secreta escada, disfarçada,
Oh! Ditosa aventura!
Na escuridão, velada,
Estando já minha casa sossegada.
Em noite tão ditosa,
E num segredo em que ninguém me via,
Nem eu olhava coisa alguma,
Sem outra luz nem guia
Além da que no coração me ardia.
Essa luz me guiava,
Com mais clareza que a do meio-dia
Aonde me esperava
Quem eu bem conhecia,
Em lugar onde ninguém aparecia.
Oh! noite, que me guiaste,
Oh! noite, amável mais do que a alvorada
Oh! noite, que juntaste
Amado com amada,
Amada, já no amado transformada!
Em meu peito florido
Que, inteiro, para ele só guardava,
Quedou-se adormecido,
E eu, terna o regalava,
E dos cedros o leque o refrescava.
Da ameia a brisa amena,
Quando eu os seus cabelos afagava,
Com sua mão serena
Em meu colo soprava,
E meus sentidos todos transportava.
Esquecida, quedei-me,
O rosto reclinado sobre o Amado;
Tudo cessou. Deixei-me,
Largando meu cuidado,
Por entre as açucenas olvidado.
 São João da Cruz


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Não quero morrer neste mundo belo,

Mas viver no coração dos homens,
E encontrar sepultura no bosque florido,

Salpicado de sol.
O jogo dos fracassos da vida como ondas
Com as suas lágrimas e sorrisos,
Unindo-se e separando-se!
Encandeando
Alegrias e tristezas do homem,
Quero construir sobre esta terra
A minha casa eterna.
Farei florescer novas flores e canções
Para que as reúnas, amanhecer e escuridão.
Colhe-as a sorrir...
E quando murcharem
Espalha-as.



Rabindranath Tagore














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Se não



falas, vou encher o meu coração
Com o Teu silêncio, e aguentá-lo.
Ficarei quieto, esperando, como a noite
Em sua vigília estrelada,
Com a cabeça pacientemente inclinada.
A manhã certamente virá,
A escuridão se dissipará,
e a Tua voz
Se derramará em torrentes douradas por todo o céu.
Então as tuas palavras voarão
Em canções de cada ninho dos meus pássaros,
E as tuas melodias brotarão
Em flores por todos os recantos da minha floresta.


Rabindranath Tagore in Abrigo dos Sábios





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Amor Pacífico e Fecundo




Não quero amor
que não saiba dominar-se,
desse, como vinho espumante,
que parte o copo e se entorna,
perdido num instante.


Dá-me esse amor fresco e puro
como a tua chuva,
que abençoa a terra sequiosa,
e enche as talhas do lar.
Amor que penetre até ao centro da vida,
e dali se estenda como seiva invisível,
até aos ramos da árvore da existência,
e faça nascer
as flores e os frutos.


Dá-me esse amor
que conserva tranquilo o coração,
na plenitude da paz!






Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera"








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O Meu coração...






«Eu perdi o meu coração no empoeirado caminho deste mundo;
Mas Tu o tomaste em Tuas mãos.
Eu buscava alegria e apenas colhi tristezas;
Mas a tristeza que me enviaste tornou-se alegria na minha vida.
Os meus desejos espalharam-se em mil pedaços;
Mas Tu os recolheste e reuniste em Teu amor.
E enquanto eu vagava de porta em porta,
Cada passo conduzia-me ao Teu portal.»


Rabindranath Tagore, in Abrigo dos Sábios










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«Existe em todas as coisas
uma doçura inesgotável,
uma infinita pureza,
um silêncio que é fonte
de toda a acção e alegria.
Ergue-se numa candura sem palavras
e flui de mim
de raízes invisíveis
de todo o ser criado.»


Thomas Merton, in  Abrigo dos Sábios


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   Lugar de Amor...

 
  Em todo o ser humano existe um recanto imaculado,
virgem, inexplorado, silencioso, profundo...
Em toda criatura permanece um mundo, santo e ignorado,
nunca antes penetrado, aguardando, enriquecido de ternura...

Há, no abismo de toda alma,
um rochedo, um lugar, uma ilha, um paraíso,
recanto de maravilha a ser descoberto...
Em todo coração se demora um espaço aberto para a aurora,
um campo imenso a ser trabalhado,
terra de Deus, lugar de sonho,
reduto para o futuro.

Em toda vida há lugar para vidas,
como em toda alegria paira uma suave melancolia prenunciadora de aflição.

Há, porém, um lugar em mim,
na ilha dos meus sentimentos não desvelados,
um abismo de espera,
um oceano de alegria,
um mundo de fantasia,
para brindar-Te, meu Senhor!

Vem, meu amado Rei e Senhor,
dominar a minha ansiedade,
conduzir-me pela estrada da redenção.
E toma posse deste estranho e solitário país,
reinando nele e o iluminando com as tuas claridades celestes,
para que, feliz, eu avance, até o desfalecer das forças,
no Teu serviço libertador.

Vem, meu Rei,
ao meu recanto e faz da minha vida um hino de serviço.
E por Ti uma perene canção de amor.


Rabindranath Tagore, in Abrigo dos Sábios.


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Cântico Espiritual
 

Quando tu me fitavas,
Teus olhos sua graça me infundiam;
 
E assim me sobreamavas
E nisso mereciam
Meus olhos adorar o que em ti viam.

Não queiras desprezar-me,
porque, se cor trigueira em mim achaste,
já podes ver-me agora,
pois, desde que me olhaste,
a graça e a formosura em mim deixaste.
(São João da Cruz)


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MEU CANTO DE HOJE

Minha vida é um instante, um rápido segundo,
Um dia só que passa e amanhã estará ausente;
Só tenho, para amar-Te, ó meu Deus, neste mundo,
O momento presente!...
 
Como Te amo, Jesus! Por Ti minha alma anseia;
Sejas meu doce apoio por um dia somente.

Reina em meu coração: Teu sorriso incendeia
Agora, no presente!
 
Que me importa, Senhor, se no futuro há sombra?
Rezar pelo amanhã? Minha alma não consente!
Guarda meu coração puro! Cobre-me com tua sombra
Agora, no presente!
Se penso no amanhã, temo ser inconstante,
Vejo nascer em meu coração a tristeza e o enfado.
Eu quero, Deus meu, o sofrimento, a prova torturante
Agora, no presente!
Devo ver-te em breve na praia eterna,
Ó Piloto Divino, cuja mão me conduz.
Sobre as vagas em fúria, guia minha navezinha
Agora, no presente. 
 
Ah! Deixa-me, Senhor, em tua Face esconder-me.
Para não ouvir o mundo a clamar futilmente.
Dá-me Teu amor, conserva-me tua graça
Agora, no presente. 
 
Junto ao Teu Coração divino, esqueço o que se passa,
Não temo mais a noite em ameaça.
Dá-me em Teu Coração, Jesus, um lugar,
Agora, no presente. 
Pão vivo, Pão do Céu, divina Eucaristia,
Ó mistério sagrado! que o Amor produziu...
Vem morar no meu coração, minha branca Hóstia,
Agora, no presente.
Digna-Te unir-me a Ti, Vinhedo Consagrado,
Para que meu ramo assim, com frutos, se apresente
E eu vou Te oferecer algum cacho dourado, Senhor,
Agora, no presente. 
Esse cacho de amor, cujos grãos são as almas...
Só tenho para formá-lo este dia que foge.
Ah! Dá-me, Jesus, de um Apóstolo o ardor,
Agora, no presente. 
 
Virgem Imaculada, tu és minha Doce Estrela.
Que me dás Jesus e a Ele me unes;
Deixa-me, terna Mãe, repousar sob teu véu
Agora , no presente. 
 
Anjo da minha guarda, cobre-me com tuas asas,
Clareia com teus fogos a estrada que sigo;
Vem dirigir meu passo e auxiliar-me, te peço,
Agora, no presente. 
 
Quero ver-Te sem véu, Senhor! Sem nuvem,
sua, ainda exilada, longe de ti, languesço.
Não me escondas, meu Deus, Tua amável Face
Agora, no presente. 
 
Já voarei ao céu para que aí profira
Meus louvores a Ti, no dia sem poente,
Quando, então, cantarei em angélica lira
O Eterno presente!...


 Santa Teresinha do Menino Jesus

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As algemas são tenazes, e meu coração dói quando tento quebrá-las
Libertação é tudo que desejo, mas eu me envergonho de esperar por ela.
Tenho certeza de que há em ti um tesouro sem preço, e que és meu melhor amigo. Mas não tenho coragem de varrer as quinquilharias que entulham meu quarto. O cobertor que me envolve é manto de pó e de morte. Eu o odeio, mas abraço-o com amor.

Minhas dívidas são grandes, minhas falhas são enormes e minha vergonha é secreta e pesada. Porém, quando venho pedir um benefício, tremo de tremo de medo de que minha súplica seja atendida.


[Tagore, Coletânea Travessia nº 28]



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Canção dos derrotados



Meu Senhor me pediu que, enquanto eu estiver à beira do caminho, eu cante a canção da Derrota, porque é ela a noiva que ele namora em segredo.

Ela se cobriu com o véu negro, escondendo da multidão seu rosto, mas a jóia em seu peito brilha no escuro. Ela foi abandonada pelo dia, mas a noite de Deus espera por ela com lamparinas acesas e flores empapadas de orvalho.
Ela está em silêncio e de olhos baixos. Deixou sua casa, e de sua casa o vento traz uma lamentação. As estrelas, porém, cantam a canção de amor do eterno para um rosto doce de vergonha e sofrimento.

A porta do quarto solitário se abriu, e ouve-se o chamado. O coração da sombra lateja com medo, porque chegou a hora do encontro.


[Tagore,
A colheita 85]

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Missa das 10
Frei Jácomo prega e ninguém entende.
Mas fala com piedade, para ele mesmo
e tem mania de orar pelos paroquianos.
As mulheres que depois vão aos clubes,                                              
os mocos ricos de costumes piedosos,
os homens que prevaricam um pouco em seus negócios
gostam todos de assistir a missa de frei Jácomo,
povoada de exemplos, de vida de santos
da certeza marota de que ao final de tudo
urna confissão "in extremis" garantirá o paraíso.
Ninguém vê o Cordeiro degolado na mesa,
o sangue sobre as toalhas,
seu lancinante grito,
ninguém.
Nem frei Jácomo.


Adélia Prado.

(De O Pelicano, 1987)






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QUANDO EU ABANDONAR o leme, saberei que chegou a hora de o tomares tu. O que deverá ser feito, será feito instantaneamente. Toda essa luta é inútil!

Coração meu, entrega tuas mãos e aceita em silêncio tua derrota. Considera qual não foi tua sorte ficar aí, tranquilamente sentado no lugar onde te colocaram!

Minhas lamparinas se apagam a cada sopro de vento e, no esforço de novamente acende-las, esqueço de tudo o mais.

Desta vez, porém, serei mais sábio. Vou esperar na sombra e estender minha esteira no chão. Quando quiseres, meu Senhor, vem aqui e senta-te comigo.

[Tagore, Gitanjali (Oferenda) 99]



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Oração da manhã

Que teu amor

brinque em minha voz e descanse em meu silêncio.

Que ele passe por meu coração e transborde em todos os meus movimentos.

Que teu amor brilhe como estrelas na escuridão do meu sono e amanheça em meu despertar.

Que ele arda na chama de meus desejos e flua na torrente do meu próprio amor.

Deixa que eu carregue teu amor em minha vida, assim como a harpa leva consigo sua música. No fim, eu o devolverei a ti com minha própria vida.

[Tagore, Travessia 55].


              
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Rabindranath Tagore

Poeta, contista, dramaturgo e crítico de arte hindu; nascido em Calcutá. Nasceu no dia 7 de Maio de 1861. Ele foi o maior poeta moderno da Índia e o gênio mais criativo da renascença indiana.
Além de poesia, Tagore escreveu canções (letras e melodias), contos, novelas, peças de teatro (em prosa e verso), ensaios sobre diversos temas incluindo críticas literárias, textos polêmicos, narrativas de viagens, memórias e histórias infantis: O Jardineiro, O Carteiro do Rei, e Pássaros Perdidos. Grande parte de sua obra está escrita em Bengali. Gitanjali (1912), uma tradução e interpretação de uma obra poética em Bengali do original de 1910 fez com que Tagore ganhasse o Prêmio Nobel de Literatura em 1913.
Seu pensamento abriu novos caminhos para a interpretação do misticismo, procurando atualizar as antigas doutrinas religiosas nacionais. Colaborou em revistas americanas, tendo obras publicadas em francês, inglês e espanhol . Realizou conferências no Uruguai, Argentina, França, Estados Unidos. Recebeu o título de "Doutor Honoris Causa e Membro Honoris Causa" de universidades e associações do Brasil e outros países, e de Oficial da Legião de Honra da França e da Ordem do Leão Branco da Tcheco-Eslováquia.
Morreu em 7 de agosto de 1941 na casa onde nasceu, em Calcutá.

~ Poemas de Rabindranath Tagore ~

~ Verdades ~

Roubo do hoje a força
Fazendo nascer o amanhã.
Da janela acompanho com olhar
As nuvens do céu.
De novo a sombra sinistra
Tolda tristemente meus sonhos.


Tua imagem me acompanha
Por todos os lugares por onde ando.
E em todos os momentos
É a tua presença que espanta
As brumas do desconhecido.


Não faço perguntas.
Tenho medo das respostas que já sei.
Liberta do invólucro físico
Devolverei a matéria ao pó de que fora feito.


Vivi meus três caminhos na terra.
Purgatório. Inferno. Céu.
Tudo de acordo com meus projetos,
Minhas atitudes,
Procurando não cair nos mesmos erros.


Agora — vago e espero
Entre tropeços e flagelos
O ressurgir da verdade.


~ Meditação ~




O amanhã pertence a nós!
Ó Sol, levanta-te sobre os corações que sangram
E desabrocham como flores na manhã,
E também sobre o banquete do orgulho,
Ontem iluminado por tochas, e hoje reduzido a cinzas...




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                        São João da Cruz

Nasceu em Fontiveros, em 1542.

Fez-se carmelita em Medina Del Campo, no ano de 1563. Instrumento provincial nas mãos de Teresa de Jesus, ajudou-a em sua obra desde a primeira fundação dos frades contemplativos, em Duruelo, em 28 de Novembro de 1568. Estando doente em Ubeda, “foi cantar matinas no céu”, na noite de 13 de dezembro de 1591.

É guia indiscutível nos caminhos do espírito. Célebre são suas obras: “Subida no Monte Carmelo”, “Noite escura”, “Cântico Espiritual”, chama Viva de Amor”. Pio XI conferiu-lhe o título de Doutor da Igreja Universal em 24 de agosto de 1926.


São João da Cruz é pai e mestre espiritual do Carmelo teresiano, doutor da vida cristã no seu dinamismo teologal, cantor da formosura de Deus e da beleza da criação. A sua lembrança torna-se, hoje, liturgia viva. Através do louvor divino, sua oração, sua poesia, seu canto eterno de glória tornam-se viático e oração do Carmelo peregrino aqui na terra. Sua doutrina foi uma exegese viva do Evangelho, por isso, a Palavra de Deus ilumina a sua experiência, e seus ensinamentos têm alcances inimagináveis na meditação dessa palavra.


Poesia de São João da Cruz

Chama Viva de Amor
Oh, chama viva de amor
que ternamente feres
de minha alma no mais profundo centro!
Pois nao és mais esquiva,
acaba já, se queres.
Ah, rompe a tela deste doce encontro!
...

Oh, quão manso e amoroso, 
 despertas em meu seio, 
onde tu só secretamente moras:
nesse aspirar gostoso,
de bens e glória cheio,
quão delicadamente me enamoras!









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Alçar vôo..




É loucura muito minha, Senhor
esperar que o teu Amor
Depois de todos os desmandos me
aceite como eu sou.
É loucura muito minha, Senhor,
esperar com terno ardor
                                           que em minhas limitações
                                           faças loucuras de amor.

                                          Águia não sou, meu Senhor
                                          Dela trago tão somente o olhar
                                          e, também, no coração,
                                          a aspiração do seu voar, voar...




(Passarinho - Santa Terezinha do Menino Jesus)



















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